Adoção: A necessidade de um novo olhar.
Angelita Márcia Carreira Gandolfi*
A adoção é um instituto que admite diversos conceitos e definições de acordo com cada
momento histórico e cultural da humanidade. Situá-la e compreendê-la dentro de suas
particularidades exige um esforço permanente de análise da conjuntura política, econômica e
social em que se insere.Levando-se em consideração este contexto, percebemos por meio do resgate histórico de alguns pontos referentes à adoção que, nas civilizações antigas o seu caráter era de
suscetibilidade, onde a função primordial da criança adotada era a de dar continuidade no nome da
família adotante, preservando acima de tudo seus bens, ou seja, as propriedades nas próximas
gerações. Assim, a adoção era uma medida conveniente para famílias sem descendentes, vista
como uma forma de se garantir em tempos futuros a permanência do patrimônio entre seus
próprios membros. Já na Idade Média a adoção afirma-se com um caráter de benevolência, principalmente
com o advento do Cristianismo. Esta ideologia cristã com base em suas doutrinas condenava o
aborto, o abandono e o infanticídio, buscando conter através da crença religiosa o acréscimo de
atos atrozes praticados contra crianças, com o ideal de manutenção da ordem burguesa. Apesar
de exercer forte influência no comportamento das pessoas naquela época, a Igreja não foi capaz
de sanar o problema de crianças desprotegidas, porque este era de ordem estrutural. A partir de
então, a adoção passou a ser vista como um ato de caridade, realizado pela “boa vontade” e pelo
espírito de compaixão dos adotantes, já que estes se dispuseram a acolher alguém rejeitado,
abandonado pelos pais biológicos, desconsiderando o contexto de vida que esta criança estava
inserida quando ainda em família. Por outro lado, na Idade Moderna a adoção se apresentava com uma conotação diferenciada, sendo considerada um importante instituto, pelo qual a criança começa a ter
assegurados perante a família adotiva os mesmos direitos de um filho biológico. Inicia-se neste
período, embora minimamente, um processo de visualização do filho adotivo como
sujeito de sua história, e não simplesmente como objeto de pertencimento dos adotantes para a
satisfação de suas frustrações e desejos.
* Aluna do 4º ano de Serviço Social da UNESP – C. Franca, estagiária do Centro Jurídico e Social,
bolsista auxiliada pela PROEX sob orientação da Profª. Drª. Maria Angela Alves Rodrigues de
Andrade. A regulamentação legislativa da adoção, por sua vez, acompanhou as nuances de cada
momento histórico, adequando-se à ideologia e ordem vigente. Sob um progresso gradual de
aprimoramento, procura-se adequar o instituido pela lei com a realidade concreta. O Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA) é um exemplo do avanço legislativo no segmento criança e
adolescente, apesar de existirem algumas falhas e críticas referentes à sua implementação.
Faz-se necessário rever esses dados para melhor compreender como a adoção se
apresenta na contemporaneidade. Como vimos, a adoção tal qual a conhecemos hoje é permeada
de crenças, valores e ideologias de tempos passados. Talvez visualizando este aparato fica mais
fácil entender porque nos nossos dias a adoção ainda se mostra com certo tabu, evidenciando
preconceitos de uma sociedade que concebe o problema da criança abandonada
fragmentadamente, não avaliando as causas do abandono. Este se faz a cada dia mais freqüente,
demonstrando que seu determinante não é a mãe biológica que abandona, mas sim um conjunto
de fatores políticos, econômicos e sociais que não dão sustentação para a família biológica
permanecer com a criança.
Por ser este assunto pouco discutido e debatido, até mesmo as famílias adotantes
concebem o abandono de responsabilidade exclusiva da mãe. Não podemos deixar de mencionar
que é sim a mãe que materializa o ato do abandono, no entanto ela também é vítima da
inexistência e exclusão de planos políticos capazes de efetivar ações políticas eficazes que vão de
encontro aos interesses da população desfavorecida.
Neste sentido, faz-se importante compreender a adoção como uma medida alternativa
diante da presença do abandono e não como uma solução. Mais ainda, torna-se imprescindível
que as famílias adotivas tenham absorvido consigo esta conotação, pois caso contrário
recairíamos no período da Idade Média, considerando o ato de adotar como uma caridade, de
modo que o adotante passaria a ser visto como o benfeitor. Precisamos estar atentos a lógica dos
fatos, compreendendo sua essência e não nos contentando com a sua aparência, com o que nos
parece ser.
Referindo-se à adoção, Bernard This diz que:
... todos somos pais e filhos adotivos. Mesmo gerando filhos biológicos, precisamos adotar a
criança real que nasce, que é diferente – em maior ou menor grau – do filho dos sonhos e dos
desejos; por outro lado, os filhos – mesmo os biológicos – precisam adotar os pais reais, que
também são diferentes dos pais de seus sonhos e desejos. (In: MALDONADO, 1999, p. 99)
Realizando uma pesquisa de campo com 50% dos casos de adoção atendidos pelo Centro
Jurídico e Social (Unidade Auxiliar da UNESP – C. Franca), entre os anos de 1990 à 2000 através
de uma análise qualitativa, constatou-se que a demora para a legalização da adoção, ou seja, a
lentidão dos trâmites processuais compromete a relação pais/filho adotivos, pois causa certa
insegurança nos adotantes, que não têm a certeza até o deferimento da ação se a criança vai
permanecer com eles ou não, embora já tenham um período de convivência assegurado pela
guarda.
A decisão por adotar uma criança deve ser compartilhada com os familiares colaterais para
que se estabeleça uma relação de aceitação do filho adotivo por todos os membros da família,
buscando desmistificar preconceitos adquiridos socialmente, com o objetivo de realmente inserir a
criança em um contexto familiar. Esta preocupação se dá por tentar evitar que a criança seja mais
uma vez abandonada, agora entre os próprios membros da família substituta.
Percebeu-se também através dos depoimentos a valorização do trabalho do Assistente
Social durante o desenrolar do processo. É com este profissional que as mães mantiveram maior
contato frente a orientações e avaliações do caso. A ação profissional diante disto deve responder
a um compromisso ético-político, intervindo na realidade apresentada propositivamente para o
conhecimento da situação apresentada, visando um atendimento de qualidade para seu usuário.
Os problemas e as polêmicas vistos em relação à adoção, ou a respeito da adaptação de
um filho adotivo são empecilhos para aqueles que não a vivenciam. O estabelecimento de vínculos
afetivos depende muito mais dos adotantes do que da própria criança. São eles que dão
condições, através de suas atitudes e comportamentos, da criança se sentir integrante do
ambiente familiar. Afirmando isto, todas as mães entrevistadas confirmaram o desejo de realizar
uma nova adoção. As dificuldades de relacionamento existentes entre pais e filhos adotivos
também se estabelecem no relacionamento de pais e filhos biológicos, porém com algumas
particularidades.
No caso da amostra desta pesquisa, todas as crianças adotivas tinham perfeito
conhecimento da adoção e de sua origem, e este fato contribuiu para que estabelecessem uma
relação de confiança com os pais. Retratar com sinceridade a ocorrência da adoção é mostrar que
o amor materno é construído independentemente do fator biológico, e isto implica também
respeitar o histórico de abandono do filho, não fazendo uma conotação negativa com o seu
passado.
A adoção aqui retratada, vem enunciar uma possibilidade de vida em família para as
crianças e adolescentes que se encontram sem lar, abandonadas tanto socialmente como psicológicamente, isentas de políticas sociais capazes de estimular o seu desenvolvimento
psicofísico e de proporcionar qualidade de vida para os mesmos.
Como a história se faz pelos homens, conscientemente eles podem se antecipar aos
acontecimentos e evocar ações para uma melhor qualidade de vida, que nada mais é do que a
efetivação da luta pelos direitos humanos e, em síntese é o interesse desta pesquisa.
BIBLIOGRAFIA
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SANTOS, Lucinete S. Adoção ou Abrigos de Tipo Ideal? Serviço Social e Sociedade. São Paulo,
Cortez, n. 63, v. 21, p. 76-93, Out. 2000.
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